A mulher sem braço

A tal mulher sem braço era uma figura única. Sempre bem arrumada. Preferia os vestidos de cores alegres. Combinava a cor dos sapatos com a dos chapéus. É verdade, ela se vestia de uma forma mais tradicional, de tempos antigos, mas mesmo assim tinha bom gosto. A mulher sem braço cumprimentava todos. Os porteiros, as empregadas domésticas , o jornaleiro. Dava um sorridente "olá" para os bêbados do bar da esquina. Ela parecia ser uma mulher querida por todos no bairro. A ausência do braço direito já não chamava tanta atenção dos vizinhos do nosso quarteirão. Eu nunca soube a profissão dela. Ela tinha cara de professora. Professora de línguas. Inglês? Francês? Não sei. Diziam que era enfermeira mas nunca acreditei. Uma enfermeira sem braço ? Realmente não sei.
Eu morava na casa em frente ao prédio dela. A janela da minha sala dava para rua e eu sempre a via saindo às sete e meia da manhã. Todo dia no mesmo horário, ela passava linda, amistosa e sem braço. Nunca fui de observar vizinhos e nem mesmo o movimento da rua mas eu era novo ali. Morava há apenas um mês. Estava frustrado pois anteriormente morava em frente à praia, tinha dois carros e um emprego de chefia numa empresa holandesa. Perdi o emprego, vendi os carros e me mudei para o subúrbio. Meus novos vizinhos constantemente diziam que eu havia comprado a melhor casa do bairro mas não me animava com isso. Estava morando no maldito subúrbio e completamente dependente do transporte público. Além do mais havia um cheiro insuportável de peixe que vinha da rua transversal. Todos os dias eu sentia aquele mau cheiro que me embrulhava o estômago. E o irônico era o nome da peixaria. 'Peixaria Aroma'. O dono só podia estar de sacanagem...
Nesse meu primeiro mês de vida suburbana o que chamava mais atenção era essa mulher. Ela era um mistério para mim. Queria saber o que ela fazia, se era casada, se gostava de quadros , se bebia, como tinha perdido o braço. Decidi que iria conhecê-la. Não pela manhã. Pela manhã as pessoas ainda estão sonolentas e o hálito geralmente não é muito bom. Esperei até o final de semana seguinte para conhecê-la. Era quase duas da tarde e vi que ela estava voltando para casa. Joguei um perfume no pescoço rapidamente e fui em direção a porta. Passei a mão na maçaneta, girei-a e percebi que estava trancada. Fiquei puto. Deixava sempre a chave na porta e ela não estava lá. Voltei para sala a toda velocidade e procurei em toda a parte a maldita chave. Perdi mais ou menos um minuto mas para mim foi uma eternidade. Não queria perder a chance de conhecer a mulher sem braço. De repente, lembrei que deixei a chave na mesa da cozinha. Voei até lá. Achei a chave e fui em direção a porta. Quando cheguei no portão da minha casa, percebi que a mulher já não estava mais ali. Olhei para todas direções na rua e nada. Xinguei bem alto e me virei para voltar para dentro. Nesse momento uma doce voz surge. - "Ei, você está bem?" E para minha surpresa ela apareceu misteriosamente no portão. Por um segundo achei que fosse uma assombração. Não entendi de onde ela surgiu. - "Sim, estou bem. Apenas topei na parede." Ela sorriu e disse para eu tomar cuidado. Ela ia se despedindo quando num ímpeto, interrompi-a: - "Espera, me diz seu nome." Ela disse: "Meu nome é Kate. Apesar do nome e da minha aparência, eu sou brasileira. Meu pai era americano e minha mãe de Minas Gerais." Respondi: - "Prazer Kate. Meu nome é Marcos e sou ex-rico." Ela gargalhou e disse que me achou espirituoso. Eu disse que só me restava isso na vida. Ver o lado bom das coisas, das tragédias. Quando mencionei esta ultima palavra logo me dei conta que não deveria falar essa palavra para ela. Afinal ela não tinha um braço. Provável fruto de alguma tragédia. Mas ela não mudou o semblante. Continuava linda, loura e sem braço. - "Marcos, você é divertido e espero que não tenha machucado o pé. Tenho que ir agora. Até mais." Ela virou-se e foi embora sem esperar que eu respondesse. Atravessou a rua e...freada forte..barulho alto....gritos. Fui para meu portão e vi Kate caída em frente ao carro. Maldito carro. Corri até ela. Seu nariz arrebitado sangrava. Ela virava os olhos. O povo se aproximava para ajudá-la. Alguns ameaçavam a integridade física do motorista e estranhamente tudo ia ficando mais silencioso. Só via Kate tentando fixar o olhar. Ela encontrou meus olhos. Trêmula, sorriu e disse: "Fica bem, Marcos. Você é um bom homem." Fechou os olhos. Morreu nos meus braços me consolando. Desse dia em diante, nunca mais reclamei da vida.
escrito por marcelo jhonas

5 Comentários:
ahm... ok. seja feliz vc também.
Irado, Jones! Agradável leitura!!!
Já disse que lembrei de Nelson Rodrigues?
=)
Bjs!
Oi Marcelito,
Demorei mas cheguei no seu blog.
Parabéns
obs: gostei muito da poesia abaixo também.
Bjsss
quérido, eu tenho uma camiseta aqui que talvez dê em vc.
ela é femininina mas GG, quer tentar?
se der é sua.
mas tem um detalhe: o meu nome vem escrito nas costas.
muito estranho isso, eu nao consigo usar por esse detalhe...heheheh
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